Adoção: pelo direito das crianças a uma família

A reportagem de capa da revista Época desta semana discute alguns problemas relacionados à adoção de crianças e adolescentes e ao direito das crianças de ter uma família. Como diz a reportagem, apesar de a adoção ser tratada judicialmente como irreversível, algumas crianças são devolvidas como se fossem sacos de batatas!

Em Niterói, a mãe adotiva Glória procurou um grupo de apoio para ajudar a vencer a agressividade do filho adotivo Samuel (de óculos), de 10 anos. Hoje, ele é amigo do irmão Lucas, de 14, com quem brinca

Achei bonito o exemplo da Maria da Glória Vasconcelos Tavares de Lacerda, por mostrar que as dificuldades com os filhos existem e podem ser superadas com amor:

A economista fluminense Maria da Glória Vasconcelos Tavares de Lacerda, de 46 anos, afirma que enfrentou desafios quando optou por adotar uma criança. Ao se separar do marido, há quatro anos, sentiu a necessidade de dar um irmão a seu filho Lucas, hoje com 14 anos. Ela frequentava a ONG Quintal de Ana e ficou sabendo sobre o caso de Samuel, então com 7 anos, nascido em Minas Gerais. Em apenas um fim de semana, ela resolveu adotar o menino. “Eu me precipitei na adoção”, diz. Mas não demorou muito para a alegria dar espaço à angústia. “No começo, foi muito difícil, houve cenas horrorosas. Ele chegou a avançar em mim, com socos e chutes. Ele cuspiu na minha cara”, disse. O garoto não aceitava ordens e se negava a ouvir conselhos. No entanto, ela não desistiu da ideia de criá-lo. “Na ONG, eles me diziam para ter calma e que essa fase iria passar”, afirma. Depois de dois meses de convivência, Glória colocou Samuel para ter sessões terapêuticas e até hoje ele frequenta a mesma analista. “Depois de uns dez meses, ele disse que me amava. Foi um dia muito emocionante.” Hoje, Samuel, aos 10 anos, controla sua agressividade, tem um bom relacionamento com o irmão, mas as dificuldades não cessaram. Ele tem problemas com o aprendizado, e Glória está lá, ao lado dele, ajudando-o na escola. “Às vezes perco o dia com Samuel nas tarefas escolares”, diz ela.

Também me surpreendi positivamente com a proposta dos psicólogos para facilitar a adoção por casais com problemas de fertilidade. Eles recomendam aos casais nessa situação que haja um luto pela criança que não foi concebida antes de procurarem pela adoção. Durante uma boa parte da vida, associamos o luto apenas à morte de uma pessoa, mas ele pode ser usado para marcar ritualmente a passagem por outras perdas, libertando as pessoas do “peso” daquela dor.

Entre os pretendentes, 82,43% não aceitam adotar irmãos e 41,19% aceitam apenas crianças brancas. Clique para ampliar

Chama a atenção, ainda, a diferença entre o perfil das crianças disponíveis para adoção e o perfil das crianças que os pretendentes querem adotar. Entre os pretendentes, 82,43% não aceitam adotar irmãos e 41,19% aceitam apenas crianças brancas. Será que existe algum preconceito racial aí? Entre as crianças inscritas no Cadastro Nacional de Adoção, 26,50% possuem irmãos registrados e apenas 36,84% são brancas.

***

E você, leitor do Blog da paternidade, conhece alguma história de adoção que gostaria de compartilhar conosco?

Etiquetas: , , , , , , , , , , , , , , , ,

2 comentários para “Adoção: pelo direito das crianças a uma família”

  1. [...] arquivo original: Adoção: pelo direito das crianças a uma família Tags: a-alegria-dar, a-proposta-dos, a-seu-filho, a-ter-sess, aceitam-adotar, aceitam-apenas, [...]

  2. Aurélio Galvão disse:

    Achei muito interessante o alerta da Simone Souza para que a adoção não seja a solução fácil que desitua o poder familiar de famílias pobres. A mensagem foi publicada no espaço da carta dos leitores da edição seguinte da publicação da reportagem que a originou (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI84308-15219,00-CAIXA+POSTAL.html).

    “Há verdadeira banalização do instituto da adoção como resolução dos graves problemas sociais causados pela falta de planejamento familiar efetivo. Crianças estão sendo retiradas de famílias pobres, sem a menor possibilidade de defesa, apenas em razão da carência de recursos financeiros. Se a mãe não consegue vaga em creche e precisa abrigar seu filho para trabalhar, qual a solução? Destitui-se o poder familiar e encaminha-se a criança para a adoção. Destituição do poder familiar é pena perpétua.”
    Simone Souza, coordenadora de defesa dos direitos da criança e do adolescente da Defensoria Pública, Rio de Janeiro, RJ